[Zero Hora] Marcos Rolim: Cova 312

3 de janeiro de 2016

Marcos Rolim: Cova 312

Jornalista e sociólogo

Milton Soares de Castro nasceu em Santa Maria e se criou no bairro Camobi, em uma família de dez filhos. O pai, brigadiano, morreu de tifo. A mãe, benzedeira, fazia pão para vender. As crianças ajudavam no sustento. Milton, por exemplo, pintava escolas desde os 10 anos. Um segundo casamento, com outro brigadiano, trouxe para a mesa mais cinco filhos e também a violência doméstica e as tentativas de abuso sobre as enteadas. No final das contas, dona Universina, a mãe, preferiu seguir sozinha e juntar os 15 que saíram de seu ventre, mais um 16º guri que ela pegou para criar. Vieram para Porto Alegre, onde Milton foi operário. Na Capital, ele fez amizade com um grupo de sargentos ligados ao ex-govenador Brizola, na época exilado no Uruguai. Em alguns anos, estava mobilizado para a resistência armada à ditadura. Com um grupo de militares — ele era o único civil — se meteu na chamada “Guerrilha de Caparaó”, um movimento que não disparou sequer um tiro. Os guerrilheiros foram presos em 1º de abril de 1967, no meio do mato, na divisa entre Minas Gerais e o Espírito Santo, e encaminhados à penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora (MG). Em 28 de abril, Milton Soares de Castro, 26 anos, o filho de dona Universina, foi encontrado morto em sua cela. Segundo os militares, ele teria se suicidado com tiras do seu lençol.

O corpo de Milton nunca foi entregue à familia. Embora estivesse preso oficialmente, seu cadáver simplesmente desapareceu. Teria ficado por isso mesmo se não houvesse uma jornalista de nome Daniela Arbex. Ela se interessou pelo caso e passou a montar as peças do quebra-cabeças. Ao final de seu trabalho, Daniela encontrou a cova onde Milton foi enterrado, descobriu os arquivos com as fotos da necrópsia e…. (bingo!) encontrou as provas de que ele não se suicidou.

Por décadas, a farsa montada pelos assassinos de Milton foi a versão oficial a respeito de sua morte. Graças ao que há de mais digno no jornalismo e na democracia, a verdade veio à tona. Ela está em “Cova 312”, livro de Daniela Arbex (Editora Geração, 2015, 342 pág.). A competência profissional e a coragem de Daniela (já demonstrada em “Holocausto Brasileiro”, sobre o horror do manicômio de Barbacena) fizeram com que a história de Milton se tornasse conhecida, uma forma de recusar a morte de sua morte.

 

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Daniela Arbex

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