Vida de gado

23 de março de 2019 Por Daniela Arbex

Recebi no meu e-mail uma notificação de preenchimento de pesquisa de satisfação. A mensagem era sobre o atendimento que eu havia recebido durante o processo para retirada de um novo passaporte, já que o meu documento e o do meu filho estavam com a data de validade vencida. Olhei para o caminho que deveria fazer para o preenchimento de um formulário frio e me dei conta que não temos a quem nos dirigir diretamente para reclamar de um serviço ruim.
O fato é que há uma verdadeira maratona para a retirada de documentos de identificação no Brasil. Pior. Os serviços públicos disponíveis para cumprimento dessa tarefa não contam, em sua maioria, com equipes treinadas para atender bem o cidadão. Sobra desinformação para o público, sem falar nas filas intermináveis, apesar de, no caso do passaporte, haver agendamento prévio de horário.
Depois de vencer toda a burocracia para solicitação do documento que permite o livre trânsito em outros países, fui buscar o passaporte na Unidade de Atendimento Integrado (UAI) que funciona no Shopping Jardim Norte. Tinha sido avisada que a presença do meu filho era obrigatória. Desta vez, no entanto, – pensei -, como era só para retirar o documento no guichê, seria tudo bem mais rápido. Ledo engano.
Quando cheguei ao posto do UAI não havia nenhuma identificação de qual fila eu deveria me dirigir. Decidi perguntar para uma das atendentes que ficam na entrada do posto sobre como deveria proceder. Antes que eu conseguisse falar com ela, uma mulher gritou que era para entrar no final da fila. Ok. Lá fui eu para o que pensava ser a fila da senha. Quando chegou a minha vez, a mesma atendente que tentei falar logo que pisei no local me disse que eu estava na fila errada. A senha para buscar o passaporte deveria ser retirada em outra fila.
Contei até dez para não perder a paciência, uma vez que poderia ter sido poupada dessa perda de tempo se houvesse qualquer tipo de sinalização para a população. Continuei à espera de atendimento, mas não fui chamada. Voltei à atendente. Ela me mandou retornar para a “fila do meio”. Voltei para lá. Tempos depois, resolvi procurar outra atendente. “Não precisa ficar na fila para pegar o passaporte, não”, disse, indo ela mesma a um dos caixas para conseguir uma bendita senha que me desse o direito de ser chamada no guichê.
De posse de um número, fui para o meio do salão em busca de uma cadeira para esperar a minha vez e a do meu filho. Quando, finalmente, fui chamada, expliquei para o rapaz que estava ali para buscar o meu passaporte e o do meu filho.
“Mas a senhora só tem uma senha?”, ele perguntou. Respondi que sim. “Vai ter que tirar outra para seu filho”. Eu não acreditei. Como assim? Por que não me informaram sobre isso logo na chegada? Uma simples orientação evitaria que passássemos por todo esse caos de novo. Explodi. “Isso não pode ser sério”. O atendente foi gentil, mas me olhou com aquela cara de paisagem que a gente faz quando tenta explicar ao outro que não há nada a ser feito.
Me levantei com Diego e lá fomos nós para a fila de novo. Parecia que estávamos dentro daqueles jogos de tabuleiro, os quais, no meio da disputa, nos mandam retornar para o ponto de partida. Só que ali não tinha nada de engraçado. Muitos minutos depois, estávamos, novamente, frente a frente, com o funcionário incumbido de nos entregar o passaporte. Desta vez, conseguimos.
Deixei o posto do UAI indignada com tanta indiferença e desinformação. Enquanto o dever continuar a ser visto como favor nas repartições públicas, o cidadão continuará a ser tocado como gado no pasto.
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Precisamos falar sobre jogos violentos

17 de março de 2019 Por Daniela Arbex

O massacre na Escola Estadual Professor Raul Brasil, que resultou no assassinato de nove pessoas e no suicídio de uma na cidade de Suzano (SP), precisa significar mais do que um episódio de consternação e comoção coletiva. Para além da dor das famílias que perderam seus filhos e também a esperança no futuro, há um debate profundo que deve ser feito no país sobre o tipo de entretenimento que crianças e adolescentes estão consumindo.
A suspeita de que o ataque tenha sido potencializado por organização criminosa na internet, através de redes de comunicação anônima usadas para circulação de conteúdo ilegal, é apenas a ponta do iceberg. Antes de mergulharem na “deep web”, conhecida como web profunda, os autores do crime participavam de jogos on-line de combate com armas e faziam disso um hábito. Sei que seria simplista demais associar o gosto por jogos violentos ao atentado cometido por pessoas que experimentavam uma completa desestrutura familiar, mas ignorar que a prática desses jogos resulta na banalização da vida é tentar não ver o que está acontecendo dentro de nossas casas. Enfurnados em mundos particulares, meninos e meninas têm trocado a convivência social pela virtual. Quem de nós não conhece uma criança ou adolescente que passa horas a fio diante do computador, alheios a tudo o que acontece ao seu redor?
Meu filho, que completa apenas 8 anos neste domingo, me surpreendeu dias desses ao participar de um jogo eletrônico com multijogadores on-line. Eu, que não faço parte de uma geração tecnológica, custei a entender como ele tinha conseguido se conectar com outros meninos e participar de atividades e desafios simultâneos sem sequer ter saído do meu lado. O fato é que descobri que muitos dos jogos que ele curte sempre eliminam alguém. E não estou falando dos jogos criados exclusivamente para matar, proibidos lá em casa. No entanto, como é uma morte fictícia, o jogador tem múltiplas vidas e sempre aquele que é derrubado pode voltar à cena. Quais os efeitos dessa matança virtual no comportamento da vida real? Diego tornou a me surpreender ao perguntar, recentemente, se pessoas más deveriam ser mortas. “Mamãe, um bandido, por exemplo”, disse, completando seu raciocínio.
Aquela frase acendeu em mim um sinal de alerta e me fez pensar que todo o trabalho que desenvolvemos em casa – voltado justamente para a valorização da vida e o respeito ao outro – pode estar sendo comprometido pelo universo paralelo dos videogames. Me arrepia imaginar que a ideia de que algumas pessoas merecem morrer ronde cabecinhas ainda tão infantis. Ignorar esse efeito na vida de nossos filhos não é só mera indiferença. É omissão coletiva.
Se nós não discutirmos o impacto dos jogos violentos sobre a infância e juventude brasileiras, continuaremos lembrando aniversários de morte: 20 anos do massacre de Columbine, nos Estados Unidos, oito anos do assassinato de Oslo, na Noruega, quando 77 pessoas – a maioria estudantes – foram assassinada em 2011. O ano é o mesmo da morte de 12 alunos assassinados em escola do Bairro Realengo, no Rio.
Talvez a gente atribua a exagero a possibilidade de “simples jogos” serem capazes de influenciar o comportamento de crianças, adolescentes e adultos. Mas se estudos mostram que eles podem, sim, causar ansiedade, fobia e depressão, além de dependência, descartar o impacto da matança virtual é imprudência. A morte não pode ser tratada como divertimento, porque a violência como espetáculo nos desumaniza.
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Daniela Arbex

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