O que está por trás da greve dos caminhoneiros?

27 de maio de 2018 Por Daniela Arbex

Tentei escrever sobre outro tema, por achar que qualquer coisa que se diga agora sobre a paralisação dos caminhoneiros possa ser precipitada, mas o momento é tão crucial que deixar de falar sobre ele não me parece possível. Como jornalista, desde segunda-feira, eu e os colegas da redação da Tribuna estamos envolvidos na cobertura da greve e os reflexos dela para o país. Estive pessoalmente com os grevistas, na BR-040, e tive a oportunidade de ouvir muitas pessoas.

A resposta que eu queria ter encontrado era sobre o que ou quem estava por trás de todo o movimento. Um partido político, as transportadoras, um sindicato, um candidato a presidência e muitas outras teorias da conspiração…

Como a situação se modifica e se agrava a todo instante, ainda não consegui ligar todos os pontos desse quebra-cabeças, embora o interesse das transportadoras nessa causa seja absolutamente claro. Mas confesso que, mesmo sem compreender todas as peças que articularam esse mega protesto, fiquei muito emocionada ao ver que, pela primeira vez, o Governo Temer parou – ou foi parado -, para ouvir a voz das ruas e o quanto há de insatisfação entre os brasileiros.

Com todo o desmonte promovido por Brasília, à revelia de uma nação, nenhum protesto conseguiu falar a língua dos governantes. Precisou de a economia ser colocada em risco para que o presidente e seus ministros se dirigissem à nação que eles parecem desprezar.

No começo da paralisação, o que mais se ouviu nas ruas foram palavras de apoio aos grevistas. Estamos todos fartos de sermos tratados apenas como peças no tabuleiro da política. Enojados de ver que o Brasil está desgovernando, à mercê da violência, do desemprego, de uma educação que não promove o ser humano, de atitudes que sinalizam para um verdadeiro retrocesso de ideias.

Estamos exaustos de trabalhar seis meses por ano apenas para pagar impostos que não são revertidos para o bem-estar da sociedade. E não estou falando só a nível federal, não. Olhe Juiz de Fora e a quantidade de buracos sem fim que se colocam diante do nosso caminho, diariamente. E o pedágio aviltante cobrado pela Concer para nos oferecer uma estrada remendada, interditada, incompleta, inadequada diante do que foi estabelecido em contrato. Um desrespeito total com quem faz a roda girar! A sensação que, nós, brasileiros, temos, é que estamos abandonados por uma gente que é paga para nos representar.

Por isso, ver o país parado não me trás nenhum alívio, mas é um sinal de que ainda estamos vivos, resistindo, apesar dos múltiplos interesses por trás dos bloqueios. Infelizmente, não se pode ignorar que, no meio dos manifestantes, há os que levantaram a bandeira da volta da intervenção militar. O que é lamentável e suspeito.

Por outro lado, ouvi gente que acredita realmente em um movimento popular para sacudir Brasília. De tudo que escutei, o que mais me chamou atenção foi a fala de um motorista autônomo que há 30 anos roda as estradas. Em seu desabafo, ele disse que são eles, os caminhoneiros, que levam o Brasil nas costas. Dos R$ 1.500 que ganha por cada frete, metade é usada para pagar combustível, outra parte vai para o pedágio, restando quase nada para manutenção do veículo. Em seu bolso, ele diz que ficam menos de R$ 400.

Mais do que ninguém, eles sabem o quanto pesa a invisibilidade. Já, nós, estamos descobrindo agora.

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Não existe manicômio bonzinho

20 de maio de 2018 Por Daniela Arbex

Essa semana, o país comemorou uma data história: o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Mas o 18 de maio não foi simplesmente de encontros e discussões no Brasil, foi um momento de protesto contra o risco de retrocesso e retomada de velhos modelos de atendimento de pessoas com doença mental. Partiu do Governo Federal a sinalização para mudanças na política de saúde mental que antes previa o fechamento de leitos de baixa qualidade, ou seja, leitos não resolutivos, que transformaram pacientes em moradores asilares de locais que foram e ainda são um depósito de gente.

Com a mudança na política nacional, os leitos psiquiátricos em hospitais especializados voltam a ser reconhecidos como parte da rede de atendimento do SUS e há um estímulo para sua manutenção e reabertura, a partir do aumento da diária do Sistema Único de Saúde. A coordenação nacional de saúde mental nega que seja uma estratégia de retomada de modelos manicomiais, mas admite que a intenção é utilizar a capacidade instalada – que até o início dos anos 2000 era de mais de 50 mil leitos psiquiátricos -, época em que o gasto com essas estruturas ocupava o topo da pirâmide da saúde. Gastava-se muito para manter as coisas da mesma forma, ou seja, não promover a ressocialização de ninguém, já que, historicamente, doentes mentais sempre foram um cheque ao portador. Os donos de hospitais recebiam por cabeça e ficaram ricos “guardando” essa gente.

Com a redução para atuais 18 mil leitos, o dinheiro saiu da mão dos hospitais para ser investido em uma rede de atendimento que ofereça cuidado em liberdade. Os “donos” dos doentes nunca aceitaram a perda da rentabilidade. E aproveitam as falhas no funcionamento dos modelos substitutivos para reascender a discussão sobre a necessidade de se ter locais para internação, pois os “doidos” passaram a engrossar a população de rua.

Se o argumento é verdade, em parte, o que está por trás dele encobre a verdadeira intenção dos opositores dessa causa. Definitivamente, não existe manicômios bonzinhos ou humanizados. A não implantação efetiva da rede de atendimento não pode ser usada como justificativa para um passo atrás. A luta precisa ser pelo monitoramento desses espaços, pela estruturação dos Caps, pela abertura de leitos psiquiátricos em hospitais gerais, além da implantação de novas residências terapêuticas no país, já que hospital não é lugar de moradia.

Pergunte ao Paulo, membro do Fórum Gaúcho de Saúde Mental, o que ele pensa sobre a ideia de voltar a ser invisível, de ser impedido do direito de ir e vir e de ser dono de suas vontades? Pergunte a Zélia, mãe de filhos que ela não pôde criar, o que acha de voltar a ser trancada em estruturas que transformam gente em coisa? Pergunte a Elzinha, que foi violada sexualmente aos 9 anos dentro de uma unidade psiquiátrica, o que ela sente diante da possibilidade de deixar sua moradia, onde tem o tão sonhado sofá vermelho, para existir em lugar nenhum, sem direito ao reconhecimento de sua individualidade?

Que o 18 de maio nos lembre da dívida histórica do Brasil com pessoas que tiveram sua humanidade confiscada por décadas a fio. Que as vozes delas nos façam pensar que o retrocesso é um gatilho para a retomada da barbárie.

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