[O Globo] Tragédia silenciosa

15 de junho de 2013

Matéria publicada em 15/06/2013.

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Tragédia silenciosa

Ao longo de cinco décadas, dezenas de milhares de pessoas morreram vítimas de abandono e maus-tratos no mais famoso manicômio do Brasil. Investigada no livro “Holocausto brasileiro”, da jornalista mineira Daniela Arbex, a barbárie na Colônia de Barbacena traz à tona velhas e novas questões sobre o tratamento dado aos pacientes psiquiátricos no país

Por Pedro Sprejer

Para milhares de pessoas, ao longo do século XX, a estação ferroviária de Bias Fortes foi o destino final, o ponto de chegada da última viagem de suas vidas. Como os trens que transportavam judeus para os campos de concentração nazistas, o sombrio “trem de doido” mineiro levava, todos os dias, não apenas pacientes psiquiátricos, mas também homossexuais, prostitutas, epiléticos, mães solteiras, filhas problemáticas, mendigos, alcoólatras, pessoas tristes, tímidas e todo o tipo de gente considerada fora da norma social, para o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena. Ali, em grandes pavilhões cercados por muros, ocorreu aquela que foi uma das maiores barbáries da história recente do Brasil.

A Colônia, nome pelo qual ficou conhecida a instituição, foi palco de um assassinato em massa que ceifou pelo menos 60 mil vidas, sobretudo entre as décadas de 30 e 80. Um crime denunciado na imprensa pela primeira vez na revista “O Cruzeiro”, em 1961, e agora trazido à tona e investigado detalhadamente pela jornalista Daniela Arbex no livro “Holocausto brasileiro” (Geração Editorial).

— As pessoas eram mandadas para a Colônia para morrer. Não é exagero dizer que houve um holocausto no Brasil. O livro surgiu da constatação que o país ainda desconhece essa história — explica Daniela, contemplada com um Prêmio Esso de Jornalismo por uma série de reportagens sobre o tema, publicada na “Tribuna de Minas”, de Juiz de Fora, em 2011.

O primeiro a comparar publicamente a Colônia de Barbacena a um campo de concentração foi o médico italiano Franco Basaglia, principal nome do movimento antipsiquiátrico que eclodiu no mundo na década de 70. Levado por um colega mineiro à instituição, em 1979, Basaglia saiu de lá chocado com o que presenciou. “Em lugar algum do mundo eu vi uma tragédia como essa”, denunciou para os microfones em uma coletiva de imprensa organizada às pressas.

A pesquisa de Daniela nasceu a partir das fotos tiradas em 1961 pelo fotógrafo Luiz Alfredo, de “O Cruzeiro”. As imagens foram republicadas no livro “Colônia (uma tragédia silenciosa)”, distribuído pelo governo mineiro em 2008. Na obra, o poder público reconhecia sua omissão e responsabilidade no caso. Sensibilizada pelas fotos que retratavam o calvário dos internos, Daniela resolveu partir em busca daqueles rostos desolados e apavorados. Queria resgatar a história, como escreve, “pelo olhar das testemunhas, das vítimas e de alguns de seus algozes”:

— Hoje, há apenas uns 200 sobreviventes. Cada vez há menos testemunhas dessa história.

O terreno onde ergueu-se a Colônia abrigou antes a Fazenda da Caveira, de propriedade de Joaquim Silvério dos Reis, o delator da Inconfidência Mineira. Inaugurado em 1903, o hospital psiquiátrico, o maior do Brasil na época, foi concebido como uma espécie de “prêmio de consolação” após Barbacena ter perdido para Belo Horizonte a disputa para se tornar a capital de Minas. O manicômio surge no esteio das teorias eugenistas de limpeza social, muito populares no Brasil na primeira metade do século XX. Até hoje, o município de 125 mil habitantes, incrustado na Serra da Mantiqueira, carrega o estigma de “cidade dos loucos”.

A partir da década de 30, o hospital foi deixando de ser uma colônia rural, na qual pacientes trabalhavam nas lavouras, para se tornar um superlotado castelo dos horrores, onde milhares de indigentes vagavam nus pelo pátio e bebiam do esgoto que cortava os pavilhões. Para economizar espaço, as camas foram substituídas por capim. Crianças viviam presas em berços. Cadáveres jaziam pelos cantos; fezes e urina inundavam os corredores e ratos circulavam livres.

— Ninguém foi punido. São tantos os responsáveis que eu não sei nem como isso aconteceria. O estado foi responsável, a sociedade foi responsável, as famílias foram responsáveis também. Foi uma omissão coletiva que se repetiu ao longo de décadas — diz Daniela.

Em um rol interminável de atrocidades, bebês arrancados de suas mães desapareciam, pessoas eram trancafiadas por anos, pacientes morriam como cobaias em “aulas de eletrochoques” para enfermeiros em treinamento, seres humanos completamente desumanizados padeciam de fome, sede, doença, tortura, frio, desespero. Conta-se que, às vezes, a rede elétrica não aguentava a carga de choques dada em uma noite. Medicamentos eram aplicados indiscriminadamente e as lobotomias eram um recurso comum. Em cinco décadas, mais de 18 corpos foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país sem autorização dos familiares — um corpo chegava a valer o equivalente a R$364.

— Havia ainda um projeto político e interesses econômicos por trás dessa barbárie. Comerciantes ganharam muito com o fornecimento de alimentação e outros suprimentos. Políticos locais que ainda estão aí tinham interesse em manter a Colônia cheia — conta a jornalista.


Entre as tocantes histórias contadas pelos sobreviventes está a de Sônia Maria da Costa, menina de rua internada aos 11 anos pela polícia. Órfã de pai e mãe, ela passaria mais de 40 anos esquecida na Colônia. Mesmo na mais precária das situações, Sônia encontrou forças para sobreviver, fez amizades e tornou-se uma espécie de protetora de outros internos. Hoje, vive em uma das 30 residências para pacientes psiquiátricos construídas pelo Ministério da Saúde em Barbacena, no início da última década, e recebe uma bolsa do governo federal.

Ao lado das histórias dramáticas de quem sobreviveu ao inferno, há, porém, lugar para alguma superação após o fim do pesadelo. O menino Silvio Savat foi confundido com um cadáver após ser fotografado com o corpo esquálido coberto de moscas. Foi uma das imagens mais chocantes de uma série de reportagens publicada por Hiram Firmino no jornal “Estado de Minas”, também em 1979 (editada em livro em 1982 pela Codecri, com o título “Nos porões da loucura”). Ao ser transferido, no ano seguinte, para uma instituição psiquiátrica em Belo Horizonte, onde reside até hoje, Savat quase só se locomovia rastejando, uma sequela por ter crescido no abandono completo. Hoje, embora não fale, parece ter vencido parte dos traumas, assim como outras das testemunhas encontradas por Daniela.

No mesmo ano da visita de Basaglia e da reportagem de Firmino, o cineasta Helvécio Ratton conseguiu da Secretaria de Saúde mineira uma improvável autorização para filmar o cotidiano do hospital. Na época, a pressão do movimento antimanicomial em todo o Brasil começava a quebrar cadeados e entrar nos porões da loucura. Pela primeira vez uma câmera de cinema chegaria a um desses calabouços.

— Senti que uma pequena brecha se abria e corri, pois temia que ela se fechasse a qualquer momento — conta o cineasta. — Até hoje, mais de 30 anos depois, não consigo esquecer do cheiro e dos gritos de lá.

Ratton lembra que durante as filmagens do curta-metragem, batizado “Em nome da razão”, a multidão no pátio cercava a equipe de produção. A solução foi destacar um integrante do grupo para distribuir cigarros enquanto os outros gravavam. Durante seis dias, filmaram das seis da manhã até a luz cair. Poucas semanas depois, o filme chocou os participantes do III Congresso Mineiro de Psiquiatria.

— Estávamos em plena ditadura, e vi na Colônia quase uma metáfora do Brasil: um lugar onde não havia liberdade e os crimes eram escondidos.

Após a onda de denúncias, os muros da loucura em Minas, enfim, começaram a ruir. Plantonista na Colônia durante o período sombrio, o psiquiatra Jairo Toledo não esquece a sensação de impotência que experimentava diante da superlotação do manicômio, que chegou a comportar 5 mil pacientes em um espaço projetado para receber 200:

— Era terrível. Você via o problema, mas não conseguia socorrer. A situação era muito precária — conta Toledo.

Nos início dos anos 80, ele foi convidado a voltar a Barbacena como diretor, com a missão de fazer da masmorra nefasta um hospital modelo.

— Foi preciso, antes de mais nada, mudar a cultura da instituição, formar uma equipe capacitada, humanizar o tratamento e impedir que os pacientes ficassem internados desnecessariamente — lembra o psiquiatra, que encerrou seu último mandato em abril deste ano.

Com as reformas, os tratamentos brutais cessaram e, aos poucos, o manicômio foi sendo transformado em um hospital geral. Em 1994, as últimas celas foram destruídas. Hoje, grande parte dos pacientes vive nas residências construídas pelo governo. Hoje permanecem internadas no ambulatório psiquiátrico aproximadamente 170 pessoas — a maioria idosos. Em 1996, Toledo, que preside a Sociedade Brasileira de História da Medicina, criou o Museu da Loucura, centro de memória para narrar a saga da Colônia e prestar tributo às vítimas.

Professor da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Paulo Amarante ressalta que, nos últimos meses, o Ministério Público fechou quatro hospitais psiquiátricos particulares em Sorocaba, onde pacientes viviam em situações que lembravam o pesadelo de Barbacena. Segundo ele, apesar dos avanços das últimas décadas, o Brasil vive um grave retrocesso no campo da saúde mental, com a internação compulsória de usuários de crack em instituições geridas por igrejas e não fiscalizadas pelos governos, e a possibilidade de aprovação do projeto de lei 7663, que recrudesce a política de internações para usuários de outras drogas.

— O Brasil está radicalizando uma política que não deu certo e gerou todas essas atrocidades. Há fortes interesses em jogo. Não se pode descartar a hipótese de tragédias como a de Barbacena voltarem a acontecer — adverte Amarante.

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Daniela Arbex

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