A vizinha do 15º andar

21 de agosto de 2018

Lidar com o tema da violência doméstica é como estar o tempo todo virada para o espelho. A cada história ouvida, a gente se coloca no lugar da vítima, de seus filhos e de seus familiares. Nas últimas semanas, eu e a jornalista Sandra Zanella nos debruçamos sobre os casos ocorridos na cidade e na região para tentar fazer uma radiografia sobre a Lei Maria da Penha, que completa 12 anos, e sobre as mudanças de cultura que têm levado as mulheres a quebrarem o silêncio que acoberta os agressores.

Falar de violência doméstica é, essencialmente, tocar no machismo que coisifica o sexo feminino e transforma esposas e companheiras em alvo de homens que não aprenderam a respeitar o outro e nem a si mesmos. Mas o que a gente aprende de imediato é que não há caminhos simples para lidar com a complexidade de fatores que levam a mulher a tolerar por anos ou décadas a violência sofrida, na maioria das vezes, dentro de casa. Uma pesquisa divulgada na última sexta-feira aponta que, das 12.340 pessoas atendidas nos últimos cinco anos pela Casa da Mulher em Juiz de Fora, quase 40% relatam ter dependência financeira de seus agressores e 33,33% admitem sofrer dependência psicológica. Há ainda a dependência afetiva, a preocupação em manter a família para preservar os filhos de uma separação e uma imensidão de conflitos que adiam uma denúncia.

Responsável pelo trabalho, a advogada especializada em Direito da Mulher e mestre em Psicologia na área de percepção social, Rose França também aponta um dado inédito: mais da metade das mulheres atendidas pela Casa da Mulher em Juiz de Fora são brancas e têm idades entre 18 e 40 anos. De fato, as quatro vítimas de feminicídio que deixaram filhos e famílias como mostra a reportagem especial que começa hoje são brancas e se encaixam no perfil de idade apontado por Rose.

Mergulhar no drama delas me fez rememorar meus 8 anos de idade, quando eu e meus pais morávamos no 14º andar do edifício José Iscold, localizado na Rua Santo Antônio. Um andar acima, um “cidadão de bem”, como muitos homens eram chamados naquela época, espancava sua esposa cotidianamente. Me lembro dos gritos de socorro dela e até do som das surras que vinham do 15º andar. Aqueles episódios me chocavam tanto, mas ninguém no prédio ousava falar sobre eles. Até dentro da minha casa o assunto era comentado com discrição. Um dia, cheguei a tapar os ouvidos para tentar não ouvir o desespero daquela mulher considerada idosa para a época.

Por várias vezes, me deparei com o agressor da minha vizinha no elevador. Discreto, barrigudo, de bigode, cabelos brancos, olhos pretos esbugalhados e uma carteira debaixo do braço. Do alto da sua covardia, ele desejava um bom dia. Sentia tanta raiva dele que até hoje consigo lembrar de seu rosto… e do dela também. Que mulher triste, amedrontada, submissa àquele sujeito que ainda era cumprimentado por todos.

Como me dói hoje saber que ninguém fez nada por aquela mulher. Nunca mais tive notícias dela. Como eu gostaria de falar para ela que, décadas depois, seus gritos estão, finalmente, sendo ouvidos.

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Daniela Arbex

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