O primeiro Dia das Mães de Zélia Landim

11 de maio de 2019 Por Daniela Arbex

Conheci Zélia Maria Landim na década de 1990, quando ela era apenas uma sombra de si mesma no hospital psiquiátrico em que era mantida em Juiz de Fora. Lá, a mulher sem passado teimava em ser. Escrevia suas lembranças em um caderno, tudo o que tinha conseguido em uma vida. Nas folhas de papel, três nomes apareciam com frequência: Bárbara, Altamir e Adair Júnior. A paciente, que passou mais de três décadas vagando por manicômios, insistia que tinha parido três filhos, embora não soubesse o paradeiro de nenhum.
O tempo passava e o vazio aumentava dentro dela. A imagem dos filhos pequenos – distribuídos por parentes do marido quando ela ficou viúva em Barra Mansa (RJ) -, ia se apagando da sua mente confusa. Mas o amor que sentia por eles jamais desapareceu. Zélia, aliás, só sobreviveu às décadas de institucionalização porque nutria a esperança de um dia encontrar as crianças que ela não viu crescer.
Quando os hospitais deixaram de ser moradia na cidade, Zélia passou a viver em residências terapêuticas a partir de 2011. O tratamento em liberdade deu a ela dignidade e força para lutar pelo direito de exercer sua maternidade. Foram 38 anos de espera até que Júnior, o filho caçula de quem ela foi afastada quando ele tinha apenas seis meses, a encontrou com a ajuda do psicólogo Ricardo Sabino, que sempre acreditou na história da paciente.
Foi na Páscoa do ano passado que ela pôde abraçar seu menino. Mas faltavam os outros filhos para que estivesse completa, pela primeira vez, em 66 anos de vida. Até que em 7 de setembro de 2018, ela realizou seu sonho. Os três bebês que Zélia não pôde criar, Altair, Bárbara e Adair – agora mulher e homens feitos -, vieram juntos à Juiz de Fora para conhecer a mãe. Estavam dispostos a compreender o passado, perdoar o destino e cuidar uns dos outros.
Hoje, neste segundo domingo de maio de 2019, Zélia, finalmente, vai comemorar seu primeiro Dia das Mães. Mais do que isso. Vai arrumar sua mala, pois está de partida da cidade para viver em uma casa de acolhimento em Minduri, referência de atendimento no Sul de Minas, onde ela ficará bem próxima da casa dos filhos.
Apaixonado pelas plantas, Adair acredita que ele, a mãe e os dois irmãos serão, um dia, como a sequóia gigante, uma das maiores árvores do planeta. Segundo ele, a semente do amor já foi plantada e agora encontrou solo fértil para crescer no desejo profundo de que os quatro sejam mais do que mãe e filhos. O sonho deles é que se tornem uma família.
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O racismo saiu do armário

5 de maio de 2019 Por Daniela Arbex

“Um dia meu filho de 5 anos me perguntou por que os pretos dormem na rua e são pobres. Expliquei que é um resquício da escravatura, que estamos tentando mudar isso, mas que é difícil. Não sei se ele entendeu. Às vezes, nem eu entendo. Sendo negro em um estado racista como o Rio Grande do Sul, eu me acostumei a ser o único da minha cor nos lugares que frequento.” O desabafo é de Márcio Chagas da Silva, árbitro de futebol e comentarista de TV em entrevista ao Uol.
Em um depoimento emocionante, Márcio falou sobre os xingamentos que ouviu durante anos a fio em campo e ainda ouve por causa da sua cor, sem conseguir esquecer da frase mais cruel: “matar negro não é crime, é adubar a terra”, revelou.
As declarações do ex-árbitro, apesar de chocantes, apenas escancaram o que é fato no Brasil: o racismo está saindo do armário. A imagem de que o povo brasileiro é cordial e tolerante ruiu faz tempo, sendo tão falsa quanto a ideia de que não existe preconceito de raça e de classe no país.
O premiado documentário de animação “A Guerra do Brasil”, produzido pelo Globo, confirma essa realidade ao mostrar que a história do país tem sido construída debaixo de violência. O número de mortes violentas nos últimos 15 anos é maior do que o de guerras da Síria e do Iraque ou de qualquer conflito armado ocorrido nesse período ao redor do mundo. Ao todo ocorreram 781 mil assassinatos no Brasil entre 2001 e 2015. É como se uma Lisboa e meia tivesse sido exterminada.
Nós não só matamos mais do que a soma de todos os homicídios ocorridos na América do Sul, como escolhemos quem deve morrer, transformando negros em alvos preferenciais. De todos os assassinados nesses anos, quase 500 mil vítimas eram pardas e negras.
Por isso, negar o racismo e a intolerância nossa de cada dia é não só ignorar os mais de 500 anos da história do Brasil, como fechar os olhos para a atualidade. Fazer silêncio sobre esse tema é contribuir com a omissão criminosa que fortalece o abismo social e, claro, econômico entre brancos e negros. Julgar o racismo superado é a pior forma de cinismo.
Em mensagem deixada no Instagram de Márcio Chagas da Silva, o ex-árbitro ouviu de um torcedor que o seu desejo era enfiar “uma banana em seu rabo”, escreveu o sujeito que tem nome e sobrenome. Mais tarde, cascas de banana foram colocadas no cano de descarga do carro do comentarista. O mais incrível é que nada disso é capaz de causar indignação.
Um dos maiores aprendizados que o jornalismo me trouxe em 23 anos de carreira foi o exercício de vestir a pele do outro.
Você seria capaz?
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Daniela Arbex

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