Na sala de espera

22 de abril de 2018 Por Daniela Arbex

Quando vi a Zélia Maria Landim, 65 anos, sentada na sala de espera de um estúdio de tatuagem no Centro de Juiz de Fora, senti uma emoção profunda. Um filme passou na minha cabeça. Nele estava impresso as imagens de milhares de brasileiros que sofrem de doença mental e passaram os últimos 50 anos confinados em locais que diziam tratar os loucos, mas, na verdade, só impunham a eles uma existência de abandono. Por isso, reencontrar Zélia livre de estruturas manicomiais, buscando reconstruir sua identidade, mexeu muito comigo.

Conheci Zélia há 20 anos, no antigo Hospital São Marcos, instituição psiquiátrica de Juiz de Fora desativada há cerca de uma década. Na época, ela participava de um projeto que ensaiava a ressocialização de pacientes psiquiátricos, com a saída temporária de mulheres internadas para realização de atividades que as aproximasse da comunidade, uma ideia embrionária do que seria, no futuro, a filosofia das residências terapêuticas.

Zélia estava entre o grupo de pessoas que era, semanalmente, levado para tomar passes na Casa do Caminho. Acompanhando o psicólogo Ricardo Sabino, responsável pela iniciativa, eu tive meu primeiro contato com as pacientes. Depois, entrei diversas vezes no hospital para denunciar as condições em que elas eram mantidas. Jamais esquecerei o cheiro daquele lugar, os gritos de lamento e a ociosidade que existia naquele espaço de confinamento. Muitas internas tinham morrido para o mundo exterior sem que ninguém sentisse falta delas. Foram tempos duríssimos.

Olhar para Zélia, agora, naquela sala de espera, dona de si mesma e de suas vontades, me encheu de alegria. Ela celebrava com uma tatuagem a volta de Júnior, o filho que não viu crescer e que, aos 38 anos, retornava ao seu primeiro ninho em busca de respostas para uma vida. Para quem experimentou muito sofrimento como Zélia, a volta do caçula era uma redenção. Tatuar o corpo significava um ritual de celebração.

Luzia, a amiga inseparável, manteve-se ao lado dela no estúdio onde a tatuagem seria feita. Também moradora de residência terapêutica, ela tem biografia semelhante a de Zélia. A doença mental impediu as duas de criarem os filhos que pariram. No caso de Luzia, que deu a luz a uma menina sadia em uma maternidade carioca, receber no lugar da filha um menino morto para enterrar foi um grande baque. Não teve com quem reclamar. Ninguém daria ouvidos a uma louca.

Tratadas como gado em uma vida de obediência e exclusão, Zélia e Luzia deram o grito de independência, empoderadas pela luta dos que fizeram a reforma psiquiátrica. Gente como a gente, elas merecem ser vistas e reconhecidas. Ao tatuar na própria pele o nome do filho que voltou, Zélia diz ao mundo que a partir de agora só admitirá carregar em seu corpo marcas de amor.

The post Na sala de espera appeared first on Tribuna de Minas.

Comentar Compartilhar:

Os filhos que perdemos no quarto

15 de abril de 2018 Por Daniela Arbex

Assisti uma interessante palestra da pedagoga Heloísa Pires, filha do saudoso jornalista, escritor e filósofo Herculano Pires. Com especialização no atendimento de crianças com deficiência, Heloísa é uma profunda conhecedora da infância e adolescência. Em um determinado momento da sua fala, ela abordou um dos grandes dilemas da atualidade: a situação das famílias cujos filhos estão perdidos em seu próprio quarto. Me identifiquei na hora com a expressão usada por ela, porque reflete a trágica realidade que a minha geração tem enfrentado diante da concorrência dos videogames e do encantamento provocado pelos chamados youtubers. Se deixarmos, nossos pequenos passam horas e horas entretidos em mundos virtuais, como o Minecraft, jogo eletrônico que permite a construção de qualquer cenário através de blocos. O fato é que não sabemos lidar com o fascínio que a tecnologia exerce nas crianças e com a idolatria delas em torno de jovens que se tornaram famosos embora sem nenhum conteúdo. O mérito deles é conseguir falar o digitalês, a linguagem da internet, transformando-se em ídolos para milhões de brasileirinhos.

Muitos desses youtubers famosos incentivam o consumo, o desperdício e o pouco apreço pelo outro. Felipe Neto, por exemplo, com mais de 20 milhões de inscritos em seu canal, disse em um vídeo recente no qual aparece jogando, que iria “comer o seu pai, transformar seu pai em gay, fazer ele se apaixonar e depois dispensar ele”. Não satisfeito, continuou seu festival de delírios. “Vou fazer ele entrar em depressão e se matar, seu merda”. É isso que os adolescentes têm ouvido de pessoas que estão enriquecendo diante de uma audiência acrítica.

Lá em casa, videogame e youtube só podem ser vistos nos finais de semana. Mas reconheço que esse pequeno limite não é suficiente. Meu filho, que só tem 7 anos, acompanha o Lucas Neto, irmão do Felipe. O Lucas tem outro discurso, é mais trapalhão e pretensamente inocente, porém não ensina nada que tenha valor e, ainda assim, domina a cena. Consegue vender todos os produtos da sua marca, inclusive uma coxinha recheada com nutela que é comercializada no quiosque de um shopping no Rio. Dia desses, um motorista que me levou para o aeroporto Galeão contou suas peripécias para viajar com a filha de 5 anos ao Rio por causa da tal coxinha. Fiquei impressionada com o esforço daquele pai que, para agradar sua menina, se deslocou até a Barra da Tijuca em busca daquele produto.

A verdade é que nós, pais, temos culpa no cartório. Permitimos que nossos meninos e meninas se percam no quarto, porque, diante das telas, eles nos dão “folga”. O conveniente, no entanto, pode nos custar caro. E não estou falando em dinheiro, não. A tecnologia não supre a sede de amor. Abandonar o filho na segurança de casa nos fará pagar um alto preço. Sem limite, referência e convivência, eles não se tornarão pessoas felizes, solidárias e preparadas para enfrentar o mundo real.

A conta do nosso comodismo chegará no dia em que olharmos para nossos filhos e nos sentirmos incapazes de reconhecê-los.

The post Os filhos que perdemos no quarto appeared first on Tribuna de Minas.

Comentar Compartilhar:

Daniela Arbex

Daniela Arbex