Pelo que seremos lembrados?

14 de janeiro de 2018 Por Daniela Arbex

Eu me pergunto sempre que tipo de marca quero deixar nessa existência. Me questiono se o que estou fazendo é relevante para outras pessoas, se resistirá à passagem do tempo a ponto de ser lembrada por isso quando eu não estiver mais aqui. Conheço uma pessoa que já tem essa resposta em vida. Em forma aos 93 anos, Dona Isabel Salomão de Campos caminhou de tal maneira neste mundo que suas pegadas ficarão marcadas na alma de quem tem o privilégio de conviver com ela. Não só pelo tamanho da sabedoria e bondade que carrega, mas pelo gigantismo do seu exemplo.
Dona Isabel não fala apenas de amor, ela vive o amor pelo próximo. Ela não ensina a caridade, a pratica em todas as suas formas. Jamais a vi perder a confiança de que tudo está sendo conduzido para o nosso melhor. Espírita, e, acima de tudo cristã, ela não tem medo de nada, apenas de fazer mal aos outros. Como não corre nenhum risco nesse sentido, posso dizer que Dona Isabel é a mulher mais corajosa que já conheci, porque a coragem dela está na dedicação de uma vida inteira em benefício do outro. Em compartilhar as suas certezas para que os outros também sejam felizes.
Não que ela não tenha problemas, isso ela enfrenta aos montes, porque ninguém manteria sem dificuldades uma imensa obra social há 60 anos – sem verba do poder público -, para ajudar a criança, o jovem, as famílias e qualquer criatura que precise de socorro. O que impressiona nela, porém, é a capacidade de se fazer maior do que qualquer problema, de não se abalar por nada, já que seus olhos estão sempre voltados para muito além de si.
Por isso, ela experimenta a alegria verdadeira, aquela de quem tem a consciência tranquila por fazer tudo que está ao seu alcance para tornar o mundo melhor do que encontrou. Atualmente mais recolhida em casa, em função de limitações compreensíveis da idade, Dona Isabel continua trabalhando e não para de surpreender.
Esta semana, apareceu de surpresa no culto de formatura do neto dela, o Leon, que se formou em Direito. Quando cruzou a porta de entrada da Casa do Caminho, onde o evento aconteceu, houve um burburinho. Todos os olhos se voltaram para ela que foi ovacionada pelo público. Aplaudida de pé, Dona Isabel sorriu, assentando-se, discreta, na cadeira do salão. Depois de cumprimentar o neto, ela se levantou para ir embora e foi, novamente, muito aplaudida.
Com seu bom humor e carisma de sempre, ela acenou para as pessoas, dizendo que não queria votos, apenas o amor de cada uma. Entre tantos dias e noites que passei ao lado de Dona Isabel, nas últimas três décadas, esse episódio não sairá da minha memória, porque trata exatamente do reconhecimento público de quem é e será sempre lembrada por muito amar.
The post Pelo que seremos lembrados? appeared first on Tribuna de Minas.

Comentar Compartilhar:

Sou substantivo, verbo, adjetivo…

7 de janeiro de 2018 Por Daniela Arbex

Há tempos, eu não abraçava a minha mãe tão longamente. Ela acabou de chegar do Ushuaia, na Argentina, a capital da Província da Terra do Fogo. Ficou 18 dias fora. Lá pelas bandas dos hermanos, mi madre se pôs a ler a coluna que escrevi sobre os talentos culinários dela. Ficou muito emocionada e disse que meu texto tinha sido o seu presente de Natal. Aqui, juntas novamente, ela afirmou que minha forma de demonstrar amor era “muito linda”. Isso mexeu comigo, porque Dona Sônia estava falando justamente da minha escrita. Se, para ela, cozinhar é um ato de amor, o meu ato é escrever.
A palavra vibra dentro de mim. Ela me desnuda. Revela uma parte do muito que carrego, porque só através das letras eu consigo me mostrar. Às vezes, quando não sou entendida em uma conversa, tenho uma vontade imensa de falar: espera aí, deixa eu escrever. Escrevendo, me sinto inteira, pois as palavras são a minha forma de ler o mundo. Quando teço um texto, procuro expressões que possam dizer mais do que sou capaz. É como uma bordadeira, que escolhe fio a fio aqueles que vão ornamentar o seu tecido.
A paulista Cris Pizziment usa a poesia para falar exatamente dessa tecitura, dos fios e dos retalhos que vão se tornando vida e memória, que vão nos construindo como seres humanos: “Sou feita de retalhos. Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma. Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou. Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior… Em cada retalho, uma vida, uma lição, um carinho, uma saudade… Que me tornam mais pessoa, mais humana, mais completa. E penso que é assim mesmo que a vida se faz: de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também. E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados… Haverá sempre um retalho novo para adicionar à alma”, escreveu.
Ao final, ela arremata o texto com o desejo de se tornar parte da história do outro. “E que assim, de retalho em retalho, possamos nos tornar, um dia, um imenso bordado de “‘nós’”.
Eu me enxergo através da escrita. E como ninguém pode constituir um enunciado sozinho, como é o caso das palavras, elas compõem a minha unidade. E entre substantivos, verbos e adjetivos, me tornam muito melhor do que realmente sou.
The post Sou substantivo, verbo, adjetivo… appeared first on Tribuna de Minas.

Comentar Compartilhar:

Daniela Arbex

Daniela Arbex