Não sou Alice no País das Maravilhas

8 de abril de 2018 Por Daniela Arbex

 

O Brasil não tem jeito. A frase que tem sido repetida como mantra, à exaustão, expressa a nossa falta de esperança na viabilidade da nação. Em momento de completa destruição do projeto de país, no qual o que está em jogo não é a legalidade, mas o que os poderes definem como sendo ou não válido, a única certeza que temos é de não sermos representados por indivíduos e instituições que, ao invés de repercutirem a nossa voz, têm se esforçado para nos calar.

Mas apesar de todo o desajuste social e político no qual estamos mergulhados nesse momento de transição, tenho me esforçado para não engrossar o coro do Brasil vencido pela corrupção e por seus corruptores das altíssimas esferas. Busco inspiração em pessoas que, de Norte a Sul do Brasil, têm usado sua expertise para criar novos olhares na forma de se construir política pública. Gente com visão holística, capaz de perceber que, se o todo é mais importante do que a soma das partes, indivíduos, instituições, interações, ideologia e interesses também contam e devem ser respeitados em suas diferenças.

De professores a médicos, de funcionários públicos e privados, de lideranças comunitárias a coordenadores de escolas de inovação, tenho encontrado, em minhas andanças jornalísticas, os que fazem a diferença no local onde estão inseridos. Gente que gosta de gente, capaz de fomentar sonhos que não limitam o ser humano, que acredita na participação coletiva como único caminho para um cenário mais justo. São os filhos de um país que só dá certo se todos se beneficiarem dele. É desses encontros que quero me cercar. Muito longe de ser taxada de Alice no País das Maravilhas, penso que a lógica do absurdo é se curvar ao Brasil da desesperança. Que meu verbo seja sempre resistência.

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Olho por olho, dente por dente

1 de abril de 2018 Por Daniela Arbex

Se alguém arranca o olho a um outro, se lhe deverá arrancar o olho. Se alguém espancar outro mais elevado que ele, deverá ser espancado em público 60 vezes, com o chicote de couro de boi. Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé. Criada no Reino da Babilônia 1.700 anos antes de Cristo, a Lei de Talião estabelecia como princípio de justiça para a sociedade mesopotâmica que o mal causado a alguém deveria ser proporcional ao castigo imposto. Na prática, porém, o cumprimento da lei que pretendia colocar todos os homens em condição de igualdade não era o mesmo quando o ofendido pertencia a uma categoria social inferior, como o escravo. Se um homem livre furasse o olho de um escravo ou lhe fraturasse o osso, pagaria com uma mina de prata, ou seja, o dinheiro livrava o autor de sofrer a pena da revanche.

Mais de três milênios depois da imposição do Código de Hamurabi, o homem conseguiu chegar à Lua, identificar a nanopartícula, inventar aparelhos como o que transmite radiação eletromagnética capaz de penetrar em objetos sólidos para a realização de diagnósticos médicos, transplantar órgãos e encontrar um novo sistema planetário composto por sete planetas com o tamanho bem parecido ao da Terra. Mas o avanço tecnológico e científico não tem sido acompanhado de discernimento.

Em pleno século 21, um adolescente de 13 anos teve a mão decepada na Vila Olavo Costa, uma das regiões mais vulneráveis de Juiz de Fora, durante um crime cometido por vingança na última terça-feira. O garoto foi atingido por um facão e, ao ser socorrido, apontou um suspeito e disse que o crime se devia ao fato de ele ter envolvimento com um homicídio que havia ocorrido dias antes no mesmo bairro. Acabou tendo que amputar a outra mão também afetada pelos golpes que teriam sido desferidos por um homem de 31 anos. Por um instante, a Rua Hortogamini dos Reis se transformou na praça pública de Sumeria, a antiga capital da Babilônia. Aliás, onde o braço do Estado não alcança, os códigos dos povos não civilizados são recriados. É vida que segue sendo banalizada pelo mal. Os homens continuam sem saber o que fazem.

 

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Daniela Arbex

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