Testemunhas do absurdo

24 de julho de 2017 Por Daniela Arbex

_ Para quê você quer desenterrar isso?

A pergunta dirigida ao então estudante de jornalismo paulista Emílio Coutinho confirma o quanto o Brasil é um país avesso a construção da memória, principalmente daquela que incomoda e nos leva a olhar para os erros produzidos pela sociedade, muitas vezes com o respaldo da mídia. Duas décadas depois, Emílio buscava resgatar a história da Escola Base e o destino dos protagonistas do maior crime da imprensa brasileira que, no ano de 1994, sentenciou os donos de uma instituição de ensino localizada na Vila Gumercindo, Zona Sul de São Paulo, ao linchamento público. Além deles, pais de alunos e até professores foram acusados de usar crianças em sessões de orgia dentro da unidade destinada à educação infantil.

A versão inverídica foi construída por duas mães de alunos histéricas, um delegado sedento por fama e diversos jornais, rádios, TVs e revistas do país ansiosos por furos jornalísticos de qualquer natureza, até os sem provas.

Por causa da repercussão do caso “Escola Base”, o colégio e as casas de seus donos foram alvos de vandalismo, os suspeitos torturados na delegacia, presos, além de serem metralhados pela opinião pública. Ao final da “investigação”, a descoberta: tudo fora inventado. Não houve pornografia, orgia, abuso sexual, nem nada parecido com isso.

A espetacularização do caso não foi acompanhada de uma retratação à altura. O fato é que 23 anos depois do episódio que destruiu a vida daquelas pessoas, a reconstrução de cada uma parece não ter acontecido. “Quem tem a imagem pública manchada pela mídia não consegue recuperá-la”, afirmou Felipe Penna na abertura do livro produzido sobre o assunto por Emílio.

Infelizmente, nem a imprensa, nem o Brasil aprendeu muita coisa com isso. Todos os dias, pessoas são condenadas por sua aparência, por sua crença, por sua cor, por sua condição social, por suas opções sexuais. Muitas acabam barbarizadas, em frente às câmeras dos celulares, em imagens compartilhadas milhares de vezes nas redes sociais, as quais nos torna testemunhas do absurdo. Enquanto insistimos em ignorar o que nos incomoda, moradores de rua são “lavados” da calçada pela prefeitura de São Paulo, que os condenou a lixo humano. Mas o que acontece com o outro não é importante, não é mesmo, desde que as ruas estejam limpas.

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A salada de Natal da minha mãe

24 de dezembro de 2016 Por Daniela Arbex

Esta semana liguei para minha mãe e pedi, pela milionésima vez, a receita da nossa salada de Natal. Nossa, não, dela, que foi a “inventora” dessa delícia dos deuses.
– Esqueceu de novo, Dani, perguntou, dando uma gargalhada.
Ri também e justifiquei que como a gente só faz o prato uma vez por ano era fácil esquecer. Ela, então, começou a listar os ingredientes: frango defumado, abacaxi em calda, passas, creme de leite, azeitona…
– Mãe, a receita não leva azeitona!
– Não? Perguntou ela surpresa.
– Não. Você está inventando…
– Uai, mas pode levar. Aliás, a gente pode colocar o que quiser. Você está lembrando da cebola ralada?
– Mãe, também não leva cebola!
– Leva sim!
Enquanto ela falava, eu fiquei pensando por que eu amava tanto esse prato. Meu pensamento correu solto e, de repente, a memória me levou para o apartamento da Rua Halfeld, onde, pequena, eu enfeitava a árvore de Natal com minha mãe. Nunca esqueci das bolas que comprávamos nas Lojas Americanas. Pude até ouvir o som da voz da minha mãe avisando que era preciso tomar cuidado para manusear os enfeites, pois eles podiam quebrar. Naquela época, o comércio ainda não tinha sido invadido pelo plástico e pelas peças made in China. Por isso, as bolas de vidro eram caras e raras. Eram únicas.
Ainda vagando pelo pensamento, me lembrei do Natal na casa da minha tia Fina, lá na Rua Barão de Santa Helena, no apartamento cuja parede era toda decorada por uma fotografia de Jerusalém. Uma das cidades mais antigas do mundo, Jerusalém é o berço dos antepassados do meu tio Antônio e do meu pai José. Em volta da mesa farta, eu, meu irmão e meus primos celebrávamos a festa com cantoria e um trenzinho humano que engatávamos pela casa ampla com chão de taco. Deu saudade!
De lá, meu pensamento pousou na época em que eu e meu marido passamos a ser três. O nascimento do Diego deu um sabor novo à nossa comemoração cristã. No primeiro Natal com nosso filho, Diego ficava sentado embaixo do galho mais baixo do pinheiro e, ainda assim, não conseguia tocá-lo. Depois vieram outros encontros que agregaram novas pessoas em nossa casa.
Ao final dessa viagem no tempo, acabei descobrindo o motivo pelo qual a salada de Natal da minha mãe não pode faltar em nossos dezembros. É que ela tem gosto de família, de um tipo de felicidade que se recicla. Embora tudo mude, é bonito ver que a vida continua sendo escrita com amor e delicadezas.
Feliz Natal, meus amigos! Que a salada de vocês seja igualmente saborosa.

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Daniela Arbex

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