“Safadinha. Você deve ter gostado”…

17 de setembro de 2017 Por Daniela Arbex

Quando soube que Ancelmo Gois seria mediador de uma mesa na qual eu falaria sobre a ditadura, fiquei muito ansiosa. Tive medo do colunista e do mito que ele é, mas, ao conhecê-lo, descobri que, como eu, ele é um operário da palavra. No debate acalorado que se seguiu após a minha fala, a de minha colega Cristina Chacel e da ex-guerrilheira Marília Guimarães, o jornalista fez um comentário que me marcou muito. Respondendo a uma pergunta da plateia, ele disse a um participante da Feira Literária de Minas Gerais (Fliminas) que ele não imaginava o que era o ódio disseminado na internet. Estava coberto de razão. Quem escreve sobre violações de direitos humanos experimenta na carne, todos os dias, o tamanho das atrocidades divulgadas nas redes sociais em forma de opinião.
Esta semana, ao conhecer a história da britânica Lillian Constantine, de 19 anos, tive mais uma dolorosa prova disso. No ano passado, a estudante de Kent, interior da Inglaterra, foi estuprada a poucos metros de casa. Apavorada diante da aproximação do desconhecido, ela ligou a câmera do celular e ameaçou: “estou filmando”, gritou a jovem de 18 anos, acreditando que o gesto dela afugentaria o homem. Indiferente ao vídeo, o estranho a agarrou, dando continuidade ao ato de violência sexual. O celular de Lillian caiu no chão, mas continuou filmando por tempo suficiente para registrar o rosto do agressor.
Apesar do trauma, a coragem da britânica conseguiu levar o autor do crime de estupro para a cadeia. Ashraf Miah foi condenado a 13 anos de prisão. Além das provas que foram colhidas de seu corpo violado, a imagem captada pelo celular ajudou a polícia a localizar o indivíduo responsável pelo trauma que Lillian carregará para o resto de sua vida. Depois de ser violentada, a estudante passou por um doloroso caminho de exames, interrogatórios, medicalização e repetição da história que viveu naquela noite. Sobre a perícia forense, ela declarou: “É surreal. No momento em que você entra, tem que se despir por completo. Precisa se deitar em uma maca de metal enquanto uma pessoa coloca instrumentos em sua vagina. Eles medem cada milímetro dos hematomas e cortes”, revelou a jovem, quebrando o silêncio que acoberta abusadores.
A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. Os Estados Unidos, a grande potência mundial, registrou recentemente quase 90 mil estupros em um ano, o equivalente a dez casos por dia. Embora já existam serviços de acolhimento mais humanizados ao redor do mundo – em Juiz de Fora esse trabalho é feito pelo Parbos -, é comum, ainda, ver a dúvida recair sobre a vítima. Paira sobre ela, na maioria dos casos, a infame incerteza: será que ela procurou isso? Como estava vestida? Também foi sair sozinha!
Ainda sob o impacto da saga da britânica, eu caí na besteira de ler o primeiro dos 375 comentários postados sobre a história dela. “Safadinha… Você deve ter gostado”, escreveu um leitor para Lillian. O comentário infame, cheio de ódio, machismo, preconceito e indiferença, me indignou. Ancelmo Gois, o mediador de uma mesa de debates formada predominantemente por mulheres, sabia bem do que estava falando. E eu, faço coro com ele: Até quando esses covardes serão acobertados pelo anonimato na internet?
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O menino empoeirado que sofria bullying

9 de setembro de 2017 Por Daniela Arbex

Conheci em Ferraz de Vasconcelos, na microrregião de Mogi das Cruzes, uma advogada que abriu mão do status da carreira para se tornar bibliotecária e, assim, percorrer o caminho das letras junto a um mundo imaginário capaz de encantar crianças e adultos. Despida de vaidade, Graça, com seus 60 e poucos anos, não chegou a ser entendida pelos filhos. Vira e mexe a prole cobrava da mãe a estabilidade que uma carreira de juíza poderia ter dado a toda família, mas ela nunca quis saber disso. Confessa que não se sente à vontade para julgar ninguém. Seria uma péssima magistrada se passasse em algum concurso. O que a bibliotecária gosta mesmo é da liberdade de viver entre livros capazes de transformar pessoas.
Foi no meio dessa prosa boa que a paulista me contou várias histórias. Soube, então, que, dia desses, o neto de 6 anos chegou amuado na casa da avó.
– O que aconteceu, meu filho, perguntou a mulher com vivência de sobra para enxergar a angústia de uma criança
– Estou triste, vó, porque na escola ninguém quer brincar comigo.
– Mas qual o motivo disso, querido?
– Meus amigos dizem que sou sujo.
O menino não precisou continuar. Graça percebeu que “sujo” era o rótulo que o neto ganhou por ser um ruivo natural, condição de menos de 2% da população mundial, e por ter a pele toda pintada de sarda. Os colegas de sala não entendiam que aquela criança “empoeirada” nada mais era do que um menino raro, cujo código genético era diferenciado da maioria. As características físicas dele eram fruto de uma mutação provocada por um gene recessivo.
Graça tentou aguçar a curiosidade do neto, explicando que ele entenderia sua forma física quando crescesse um pouco mais e tivesse aulas de biologia.
Mas ela também sabia que precisava fazê-lo se sentir especial. Por isso, o pegou pelas mãos e saiu com o garoto a tiracolo pela rua. Entrou com ele em quatro lojas, embora não precisasse comprar nada. Em todas elas, as vendedoras se dirigiram ao menino.
– Nossa, como você é lindo, disseram.
Embora nada tivesse sido combinado, a bibliotecária tinha certeza que o neto chamaria atenção.
Minutos depois, ela interpelou a criança.
– Você viu, meu filho, o quanto você é especial?
– Nossa, vó, sou mesmo, né, respondeu o garoto surpreso.
– Então, amanhã, quando você chegar na escola, diga a sua turma que você não é sujo, mas um lindo menino ruivo, cujo charme encanta as meninas.
Dito e feito. O bullying terminou ali.
No final da nossa conversa, me lembrei de um texto que li no qual uma psicóloga perguntara para toda uma família durante uma consulta quem dentre os presentes era o responsável pela menina que seria atendida. Todos se entreolharam sem resposta, afinal, trabalhavam muito.
– Essa menina precisa ser prioridade na vida de alguém, respondeu a profissional.
Só então, eles se deram conta que amor sem cuidado não cresce.
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