A salada de Natal da minha mãe

24 de dezembro de 2016 Por Daniela Arbex

Esta semana liguei para minha mãe e pedi, pela milionésima vez, a receita da nossa salada de Natal. Nossa, não, dela, que foi a “inventora” dessa delícia dos deuses.
– Esqueceu de novo, Dani, perguntou, dando uma gargalhada.
Ri também e justifiquei que como a gente só faz o prato uma vez por ano era fácil esquecer. Ela, então, começou a listar os ingredientes: frango defumado, abacaxi em calda, passas, creme de leite, azeitona…
– Mãe, a receita não leva azeitona!
– Não? Perguntou ela surpresa.
– Não. Você está inventando…
– Uai, mas pode levar. Aliás, a gente pode colocar o que quiser. Você está lembrando da cebola ralada?
– Mãe, também não leva cebola!
– Leva sim!
Enquanto ela falava, eu fiquei pensando por que eu amava tanto esse prato. Meu pensamento correu solto e, de repente, a memória me levou para o apartamento da Rua Halfeld, onde, pequena, eu enfeitava a árvore de Natal com minha mãe. Nunca esqueci das bolas que comprávamos nas Lojas Americanas. Pude até ouvir o som da voz da minha mãe avisando que era preciso tomar cuidado para manusear os enfeites, pois eles podiam quebrar. Naquela época, o comércio ainda não tinha sido invadido pelo plástico e pelas peças made in China. Por isso, as bolas de vidro eram caras e raras. Eram únicas.
Ainda vagando pelo pensamento, me lembrei do Natal na casa da minha tia Fina, lá na Rua Barão de Santa Helena, no apartamento cuja parede era toda decorada por uma fotografia de Jerusalém. Uma das cidades mais antigas do mundo, Jerusalém é o berço dos antepassados do meu tio Antônio e do meu pai José. Em volta da mesa farta, eu, meu irmão e meus primos celebrávamos a festa com cantoria e um trenzinho humano que engatávamos pela casa ampla com chão de taco. Deu saudade!
De lá, meu pensamento pousou na época em que eu e meu marido passamos a ser três. O nascimento do Diego deu um sabor novo à nossa comemoração cristã. No primeiro Natal com nosso filho, Diego ficava sentado embaixo do galho mais baixo do pinheiro e, ainda assim, não conseguia tocá-lo. Depois vieram outros encontros que agregaram novas pessoas em nossa casa.
Ao final dessa viagem no tempo, acabei descobrindo o motivo pelo qual a salada de Natal da minha mãe não pode faltar em nossos dezembros. É que ela tem gosto de família, de um tipo de felicidade que se recicla. Embora tudo mude, é bonito ver que a vida continua sendo escrita com amor e delicadezas.
Feliz Natal, meus amigos! Que a salada de vocês seja igualmente saborosa.

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Os sem razão

18 de dezembro de 2016 Por Daniela Arbex

Algumas atrocidades só se repetem em países sem memória. Infelizmente, o Brasil não se acostumou a transformar os erros do passado em ensinamentos para mudar o presente. Esta semana, recebi por WatsApp uma mensagem cujo conteúdo me deixou preocupada. Sob o título “O pior é que o milico tem fortes razões”, o texto, supostamente extraído do discurso de um general, questionava a liberdade.”Liberdade para quê? Liberdade para quem? Liberdade para roubar, matar, corromper, mentir, enganar, traficar e viciar? Liberdade para ladrões, assassinos, corruptos e corruptores? Falam de uma “noite” que durou 21 anos, enquanto fecham os olhos para a baderna, a roubalheira e o desmando que, à luz do dia, já dura 26!”
Lá pelas tantas, o militar pergunta se vivemos mesmo anos de chumbo ou se aqueles tempos foram de paz? Eu respondo, senhor general. Em nome das famílias que até hoje não conseguiram enterrar os seus mortos, vivemos, sim, anos de terror. Em nome dos jornalistas calados pela censura e assassinados pelo regime civil-militar, como Vladimir Herzog, em 1975, sofremos muito com uma ordem que se impôs pelo medo. Embora o medo ainda nos acompanhe diante da violência que nos assola, jamais trocaria a nossa caótica realidade por um governo que usa a força para maquiar um país.
Afinal, que mérito há em governar sob o manto do silêncio? Também não posso aceitar que o mito de uma sociedade perigosa, que alimentou tantas injustiças, ainda seja usado para nos convencer que a paz que necessitamos seja conquistada pelo uso da arma ou pela pena de morte. Por acaso não havia violência e corrupção na época da ditadura? Sim, havia, principalmente governamental. A diferença é que as vítimas não tinham voz. Permaneciam na invisibilidade, como muitos outros inocentes confinados aos porões que a lei jamais alcançou.
Mais do que o medo que sinto diante da falta de justiça, me arrepia pensar que podemos voltar a ser comandados por pessoas que encarnam o protótipo de pacificadores, mas são movidos pelo desejo de guerra e poder. Respeito as nossas instituições e os seus representantes, conheço militares que honram sua farda, e os admiro por isso, mas também conheço de perto personagens que muitos livros de história jamais citaram.
Por isso, defendo, acima de tudo, o poder de escolher o que eu devo pensar. Não estamos alienados diante do desgoverno do Brasil. Mas nenhuma derrota me convencerá que o melhor para nós é o retrocesso de um período marcado pela dor imensa da mordaça e a vigilância do cativeiro. Fico com Dom Paulo Evaristo Arns que jamais se deixou calar. Viva a liberdade!

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Daniela Arbex

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