2018: um ano sem data para terminar

7 de outubro de 2018 Por Daniela Arbex

Acho que é a primeira vez que acompanho uma campanha eleitoral com uma sensação de angústia por ver a democracia brasileira tão ameaçada por radicalismos da ultra direita e também da esquerda que usa de artimanhas para não perder o poder. Se antes eu tinha esperança de mudança, preciso dizer que, neste momento, não acredito em nenhuma. O jogo da política nunca foi tão perverso, porque ele está sendo jogado pelo que há de pior em candidatos a um cargo público: o interesse próprio. E o Brasil? Infelizmente é só um pano de fundo em meio a disputa de poderes que racham um país ao meio em nome de ideologias alimentadas pelo ódio, de um lado, e pelo revanchismo, de outro.

Interessante notar como a história é cíclica e como, via de regra, aprendemos pouco com ela. E Jair Bolsonaro (PSL) está aí para mostrar isso. Com mote ultraconservador, ele encarna o que uma considerável parcela do eleitorado deseja: o fim das liberdades e uma pretensa moralidade que existe só no discurso, afinal, que moral há em um homem que chama mulheres de vagabundas, que incita o ódio às minorias, que empurra, ofende e tenta calar jornalistas nos corredores do Congresso Nacional? Que exemplo há em quem defende a família, mas diz que algumas mulheres não merecem ser estupradas por ele? Difícil entender alguém que prega o fim da violência defendendo o uso de mais violência ainda e que acredita na força e na intimidação por ser incapaz de sustentar um diálogo. O lamentável e injustificável esfaqueamento de Bolsonaro catapultou o líder popular à condição de mito nada original, pois retoma o lema do movimento integralista de 1932 – Deus, Pátria e Família -, para derrubar a “ameaça” comunista. Tudo bem parecido com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade que apoiou o Golpe de 1964.

Já Fernando Haddad (PT) cresce à sombra de Lula. É o candidato marionete de um partido que realizou mudanças, mas que insiste em negar seus equívocos, tentando apagar todo um rastro de corrupção que assola um país vilipendiado desde a colonização portuguesa. Nunca a sentença de Sartre para a humanidade fez tanto sentido, afinal o inferno são os outros. Existem ainda outros nomes, vocês poderão dizer, afinal sempre há opção. Mas candidatos com campanhas sujas enfraquecem o exercício de cidadania pelo voto. Parece que 2018 é um ano sem data para terminar.

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“Na próxima encarnação, posso ser Deus”?

30 de setembro de 2018 Por Daniela Arbex

Dia desses, Diego soltou uma de suas muitas pérolas. “Mãe, na próxima encarnação, eu posso ser Deus”? Já vi gente querendo voltar rico, bonito, famoso, mas sonhando em ser a causa primária de todas as coisas foi a primeira vez. Expliquei para ele que Deus já existia antes de nós e que esse papel superior cabia só a Ele. Meu filho ficou frustrado por não poder experimentar “o poder supremo”, embora eu ainda não soubesse exatamente o que ele pretendia fazer com toda a potência da criação. Fiquei olhando aquela pessoinha na tentativa de entender o que realmente queria dizer. Decifrar filhos é uma arte que exige experiência e um bocado de tutano.

É que se engana quem pensa que uma criança é uma página em branco e que nós, os pais, somos aqueles que os ajudarão a “escrever” seu livro de vida. Se fosse simples assim não haveria tendências, desejos e informações que se manifestam desde a idade mais tenra e que se mostram bem independentes da vontade e até do conhecimento dos adultos. É claro que a família é a grande referência para a infância. Infância só, não. Para toda a existência. Mas os filhos carregam uma bagagem própria e é justamente o que trazem que exige capacidade de compreensão.

O que não muda em qualquer endereço é o esforço que eles demonstram para fazer valer suas vontades. Nisso, eles são muito bons. Como para crianças não há entendimento sobre o tempo futuro, tudo para eles é visceral. Aqui e agora é o que importa. Lá em casa, por exemplo, todos os dias são os melhores da vida do Diego. Quase todos. Eu sou quase sempre a melhor mãe do mundo, com direito a beijinho na mão para amolecer corações. Mas basta alguns nãos para que nem tudo seja assim tão bom e para que o dia mais incrível se torne tedioso. Dá para acreditar que tédio faça parte do dicionário dessa geração?

Falando em dicionário há algumas palavras que parecem mais difíceis de se aprender do que outras. Resiliência, tolerância, empatia, aceitação do outro. Escrevendo agora percebi que muitos substantivos e verbos são incompreensíveis até para o mundo adulto. Em tempos de ódio absoluto, no qual diálogo pode ser confundido com fraqueza e construção de paz com mimimi, é duro perceber que a inconsequência da criança está mais presente no cotidiano das nossas relações do que pensamos. Quando a força assume o lugar da razão, o “pior dia da vida” pode não ser apenas uma mera força de expressão infantil.

Voltando ao Diego e a próxima encarnação, descobri que a pergunta dele sobre ser Deus não tinha nada a ver com o desejo dele de mudar o mundo. Na verdade, ele só queria ter o poder de mudar as regras lá de casa que o proíbem de assistir YouTube durante semana. Ah, se todo dilema fosse tão simples assim!

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Daniela Arbex

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