A um passo do holocausto

19 de novembro de 2017 Por Daniela Arbex

Vivi recentemente uma experiência inusitada em Barbacena (MG). Convidada a fazer um debate após a apresentação do documentário Holocausto brasileiro, dirigido por mim e Armando Mendez, e exibido pela HBO, a plateia, assim como a cidade, estava dividida entre os que acreditam e aqueles que continuam a duvidar que as histórias reveladas pelos sobreviventes do hospício sejam mesmo reais. E, entre os que duvidam ou defendem aquele modelo de segregação, há muita coisa em jogo. Vergonha de ter assistido passivamente às mortes de 60 mil pessoas, heranças culturais de uma sociedade capaz de naturalizar o mal e os abusos aos quais os pacientes foram submetidos por décadas, sensação de impotência diante de uma engrenagem que era muito maior do que o inconformismo de uma só pessoa.
Acolhida por muitos e atacada por outros, fui surpreendida pela postura de uma jovem psiquiatra, apontada como alguém comprometida com a causa, mas que acusou frontalmente a política de saúde mental do país de promover desassistência. Citando números desatualizados, ela afirmou que o fechamento de leitos não foi acompanhado pela abertura, em quantidade suficiente, de vagas em serviços substitutivos, cuja lógica é o tratamento em liberdade. Naquele instante, reconheci os desafios impostos por um modelo que prioriza o ser humano e que tira da invisibilidade homens e mulheres confinados ao isolamento por 30, 40, 50 anos. Enxergá-los exige muito de nós. Exige mudança de olhar e a multiplicação de estruturas capazes de devolver dignidade aos esquecidos sociais.
No entanto, é impossível não notar todo o esforço e comprometimento dos trabalhadores de saúde mental na busca de soluções para um problema que ninguém quer: o doente. Se é fato que não há ainda serviços substitutivos no país em quantidade suficiente para atender pessoas com transtorno mental, é impensável continuar a defender o hospital como lugar de moradia. Não é e nunca deveria ter sido. E me preocupa assistir ao levante de ideias que julgávamos ter sido abolidas pela luta do movimento antimanicomial.
Diante do impasse entre o velho, o novo e a ameaça de retomada de tempos medievais, me vem à cabeça a história da paciente que respondeu com violência a toda violência a qual lhe foi imposta. Internada no Colônia por um quadro de epilepsia, ela passou por várias fases em mais de 30 anos de institucionalização. A automutilação, a apatia por causa dos castigos físicos a que foi submetida até tornar-se agressiva com o outro. Para defender-se, ela mordia. Uma junta médica decidiu, então, reunir-se na década de 1980 para encontrar uma forma de dar fim ao comportamento antissocial da paciente. Ao final, o veredito: arrancar todos os dentes da infeliz.
Soluções simplistas podem ser absurdamente equivocadas e privadas de sentido. Não ter vagas para todos em situações de crise em hospitais gerais ou para pacientes estabilizados em casas lares, unidades de acolhimento e centros de atenção psicossocial não pode ser a justificativa para se aventar a volta dos manicômios ou a permanência de pessoas em ambientes de confinamento. É preciso que a sociedade civil e o poder público se mobilizem pela cobrança da garantia de espaços humanizados, como as bem-sucedidas residências terapêuticas. Aceitar o retrocesso é como validar um novo holocausto.
The post A um passo do holocausto appeared first on Tribuna de Minas.

Comentar Compartilhar:

Tolerância zero

12 de novembro de 2017 Por Daniela Arbex

Reencontrei esta semana amigas muito queridas, cuja carreira premiada no jornalismo me dá um baita orgulho. Natália Viana, da Agência Pública, e a fotógrafa independente Marizilda Cruppe são o que há de melhor nesta profissão: guerreiras, éticas, talentosas e apaixonadas por gente. E foi em um bate-papo regado à contação de histórias e de idealização de futuros projetos que nos demos conta do quanto a nova geração é diferente da nossa e, em vários aspectos, muito melhor. Prova disso, é a tolerância zero para abusos e preconceitos dos quais a nossa geração foi vítima silenciosa. Neste tempo novo, os jovens estão mais empoderados e capazes de perceber que assédios morais, sexuais ou posturas preconceituosas de qualquer tipo devem ser combatidos na carne, mesmo que a superexposição do caso quebre a possibilidade de anonimato de quem denuncie.
Vimos isso recentemente na coragem da universitária da UFJF, Mariana Martins, que não se calou após ter sofrido injúria racial pela internet. A denúncia dela levou ao indiciamento de um conselheiro tutelar e ao afastamento temporário do cargo que ocupava. Meses atrás foi a vez de uma estudante de odontologia da UFJF levantar a voz para revelar os assédios praticados por um professor que foi posteriormente demitido. Eu mesma ouvi de mulheres diferentes, bem mais velhas do que a acadêmica, que também tinham sido vítimas desse homem, porém, não tiveram coragem de levar as queixas adiante.
E o que dizer da quebra do silêncio das vítimas do ator Kevin Spacey, acusado de pedofilia e abuso sexual por diversos rapazes? Se viessem à tona na data que ocorreram, as denúncias contra Spacey talvez não tivessem tido a repercussão de agora. Em tempos de cegueira profunda, na qual a nossa geração estava mergulhada, nada afetaria o status do ator multimilionário de Hollywood. Em uma era de ativismo, como agora, no entanto, Spacey perdeu seu emprego, teve a sua participação em um filme já gravado cancelada, sendo removido das cenas pela primeira vez na história da indústria do cinema.
Fim da linha também para o prestigiado produtor Harvey Weinstein, acusado de três estupros e vários casos de assédio sexual. Quando as denúncias vieram à tona no mês passado, famosas, como Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie, ganharam coragem para revelar ao mundo sobre as investidas do fundador da Miramaz e da The Weinstein Co. Desde então, Harvey vive um inferno particular. Foi demitido da empresa que fundou, expulso do Sindicato dos Produtores dos Estados Unidos e da Academia de Arte e Ciências Cinematográficas americana. Embora sua conduta desonrosa fosse conhecida há mais de 20 anos, só agora a sociedade está mais amadurecida para combater com ênfase personalidades desse tipo, apesar de todo o dinheiro e poder do produtor.
O mesmo aconteceu com o jornalista William Waack, afastado da bancada do Jornal da Globo após um vídeo no qual ele faz declarações racistas ter sido colocado na internet. O autor do vazamento, Diego Rocha Pereira, é um ex-funcionário da emissora. Jovem e negro, ele guardou o material por um ano e, após ser demitido, resolveu trazer à tona a questão que o incomodou por todo esse período. A queda de Waack diz muito sobre um tempo no qual as máscaras não conseguem mais ser sustentadas. Antes de Waack, eu costumava defender a ideia de que bons jornalistas tendem a ser boas pessoas. Infelizmente, o âncora provou que essa máxima não é verdadeira.
The post Tolerância zero appeared first on Tribuna de Minas.

Comentar Compartilhar:

Daniela Arbex

Daniela Arbex